Blog

JESUS, SEGUNDO JESUS...

Quando finalmente poderei falar de quem sou e de como vivi?

Não lhes interessa saber que meus pais foram pessoas jovens, ainda adolescentes quando vim ao mundo? E que tenho a honra de ter sido o filho de um construtor de casas e de uma campônia que reunia na mesa seus filhos e filhas saídos de suas entranhas? Por que acreditam que ela seria menos digna como mulher se não tivesse amado meu pai? As mulheres não amam? Eu sempre estive em companhia delas e lhes asseguro, elas amam...

Jesus Humqno 3Por que dizem que não posso ter sentido amor por alguém que me tenha sido tão cúmplice em compreensão de meus ideais de um lugar melhor para mim e para meu povo viver? Por que a chamam de meretriz, de endemoniada? Ainda que fosse, onde está a misericórdia que vocês dizem sentir? Por que me negam o direito de me defender como homem? Por acaso, vocês estão de novo a me julgar como Herodes ou Pilatos? Talvez, este seja um dos motivos pelos quais vocês gostam de reviver uma história, a da minha paixão e que não foi nem da forma como lhes contaram...

Por que não posso ter amado?

Talvez, porque o amor que vocês sentem, seja frágil. Suscetível de desilusão. Ou seria por causa da conceituação que vocês deram ao amor?

Por que não posso ter amado, como você ama sua mulher e seus filhos? Por que isso é estranho a você? Então, você é estranho por amar seus entes queridos? Você tem menos valor por desejar ter uma família?

Confesso que ao me deparar com um mundo eivado de opressão, de dor e de flagelações, não o compreendi no início. Os perigos que visitam a vida de uma criança não ultrapassam os limites de sua imaginação. Entretanto, desde cedo, fui advertido não por meus pais, mas pelos meus olhos de que aquelas imagens vistas de longe sobre os montes e em algumas vias, em formato de T, tinham o poder de calar o meu povo.

Ainda assim, os homens de meu vilarejo, não suportaram e romperam com o silêncio, aliando-se a grupos armados. Eu conheci alguns destes que defendiam ter zelo, por isso, zelote. Eram pessoas cheias de dor, e que compreendiam, segundo suas necessidades, a urgência de uma revolta e a tomada do poder, ainda que fossem contra seus próprios irmãos. Para depois, quem sabe, fazer o quê? Como pode um simples pastor de ovelhas com os pés machucados ou um pescador com mãos cortadas pelas redes, assumir tamanha missão, a de conduzir um povo a um ponto enquanto todos olham para lugares diferentes? Em especial, para interesses que lhes atendam os gostos e viciações, e onde não há preocupação com o alívio dos mais oprimidos...

Sim, porque foi o que vi em meu mundo. Por acaso o mundo em que você vive é diferente do meu? Espero que sim... Afinal passado tanto tempo, já deveria ser um lugar melhor...

Interessante, mas desde há muito que o poder tem esse fascínio sobre nós, meros mortais. O meu povo, perdeu-se na eleição de um rei e ainda que houvesse testemunhado que tal experiência de conferir a uma pessoa todo o poder seria perigoso, optaram pela ilusão, a de que sempre seremos fortes para resistir à devastadora sedução. Qual escravidão é maior? A imposta por governantes e líderes religiosos hipócritas, vendedores de ilusões ou a que é o resultado das nossas escolhas mergulhadas na ambição, no mau uso da inteligência, na vivência de comportamentos alimentados na amargura de nossos erros, de nossas adulterações?  

Mas, como se sustentar diante dos arrastamentos daquilo que brilha como estrela à frente de uma noite escura? Até que se descobre que aquele brilho só existe em nossa limitada percepção à distância. Como ocorre com um viajor no deserto que após enfrentar temperaturas elevadas, delira em suas necessidades que o hipnotizam, semelhante às serpentes antes de devorarem suas vítimas.

Eis o que decorre da manietação de tudo aquilo que gera o sofrimento, a dor, a desilusão. Agarrar-se ao que não lhe pertence e ao que também está morto. Houve um jovem que conheci em minhas andanças, e nele pude perceber o quão intensa era a preocupação com as coisas dos mortos... E assim, brigando por coisas mortas, perdeu também a vida, que se esvaiu, que se aniquilou, que se apagou...

Foram várias as noites em que estive imerso nestas reflexões. Às vezes, com o corpo encostado em uma videira ainda jovem diante de minha casa, ou sentado sobre rochedos, muito comuns em minha inesquecível Galileia. Depois, soube que disseram que eu vivia pelo deserto sendo tentado por forças maléficas... Os homens falam dos outros o que querem e sem lhes dar o direito de resposta.

Um dia se encontrarão nessa situação e saberão o quão é doloroso não poder se defender. Dentro de minha casa, minha família dorme, mas agora meu olhar se perde ao ver que a distâcia que me separa dos montes de Golan ou das montanhas da Samaria, é a mesma que afasta seu entendimento a meu respeito. Estamos longe um do outro... E você ainda diz que me conhece? Escreve livros a meu respeito, produz o que chamam de filmes... Quando finalmente, eu poderei falar quem sou, sem suas interpretações, seus moldes, sem suas filosofias e religiões? Até minha aparência mudaram... Este não sou eu! Por que lhes incomoda minha cor típica das regiões quentes e áridas? Resultado também da mistura de tantas etnias que aqui vieram nos escravizar ou que meus antepassados se tornaram senhores de outras, mais frágeis. 

Não me perturba não ser entendido por você. O que me trás indignação é você dizer quem eu não sou e o que não fiz. Se ponha no meu lugar por alguns instantes. Você gostaria de que várias pessoas que você não conheceu, dissessem ao mundo e ainda deixassem registrado em escritos o que você nunca fez? Que lhe apresentassem às pessoas, conforme sua prevenções, seus conceitos religiosos, suas ideias preconcebidas? Isto o deixaria feliz? O que você sentiria?

E se depois de tantos encontros com seus amigos, de ter tido longos diálogos acerca do que é essencial à vida, de você ter se envolvido com a dor até dos estranhos, de ter falado àqueles que estavam revoltados e sentindo-se injustiçados, e mesmo assim, lhe dissessem que você não foi humano, e sim um ser divino, que veio de constelações distantes, que sua mãe traiu seu pai com um deus pagão, que seus amigos o abandonaram, e que você tinha um sentimento forte de depressão e só falava em morrer para salvar até os que não queriam ser salvos, e finalmente, depois de sua morte, o elegessem à categoria de governador de um Planeta?

Eu que nunca quis poder, me conferiram este título, como se já não bastasse ter o romano Augusto como governante do mundo... Eu que sempre vivi nas pedreiras de Nazaré ou da pesca com meus amigos... Eles poucas vezes me entenderam, e você depois de todo esse tempo, deseja ser o dono da verdade acerca de uma vida que me pertenceu?

Sim, mas, retomando nosso diálogo... O que você sentiria ou pensaria daqueles que assim agissem?

O quê? O que você disse?

Frustração?

Desculpe, eu não entendi bem... Indignação?

Ah... entendi, sentiria uma profunda incompreensão... Sei bem o que é isso...

Não ser compreendido é muito comum entre os homens. Então, você não é diferente de mim, pois eu senti indignação quando usurparam a fé dos meus irmãos, falei abertamente aos que não queriam deixar livre o pesamento, mas ao invés de usar uma coroa, ou me aliar aos revoltosos, pensei em fazer algo que até então quase todos haviam esquecido... Simplesmente amar, amar com verdade, amar com energia, amar com entrega, amar com compreensão, amar sem omissão, amar com compaixão, e amei...Jesus Humano 2

Mas ainda assim, me exigiram mais... Me exigem até hoje nascer num lugar estranho entre animais, viver como um semi deus e morrer como um esquecido por Deus. Me chamaram de Cristo, de Salvador, de Cordeiro, de Senhor, de Pastor, de Rei e até de Deus, e de tantas outras qualificações que nem consigo lembrar agora... Também, não valeria a pena!

Sabe por quê?

Porque eu ainda sou um estranho, e assim permanecerei enquanto não me deixarem falar... Enquanto não me procurarem onde jamais pensam encontrar... Onde sempre estive... No tempo e no Espaço que você teme entrar, porque ali, você não me reconhecerá... 

 

 

Read 2076 times Last modified on Segunda, 17 Julho 2017 13:10
Liszt Rangel

Liszt Rangel é jornalista, psicólogo, com atuação clínica, de base analítica, e historiador, com pesquisas acerca das Civilizações Antigas. Há quase 20 anos se dedica a estudar o Jesus Histórico e o Cristianismo Primitivo, realizando investigações na Europa, Oriente Médio e África. Como escritor, já publicou dez livros, sendo cinco livros na área da Psicologia.

Login to post comments