Blog

MEU INIMIGO, MEU MESTRE

Não raro, vemo-nos envolvidos em tramas que se desdobram como pequenas marolas e que logo se tornam ondas gigantescas. A dissimulação associada ao caráter de cinismo, acusa uma postura leviana e que, geralmente, causa revolta, ingratidão, dor psíquica, raiva e até ódio.
As causas desses males, ignora-se. Sabe-se o porquê? Ainda que sim, pouco importa, pois que são por demais complexos, porque refletem uma estrutura, também, intricada e engenhosa, a personalidade humana.

 

Inimigo

Por que este ou aquele indivíduo nos odeia? O que fizemos para merecer tamanha violência quer nas palavras ou em atitudes de escárnio e rejeição? A busca pela causa é uma constante na natureza humana. Podemos até encontrar as respostas, algumas vezes para determinados relacionamentos baseados no ódio, entretanto, como lidar com esse sentimento antagônico é o que faz a diferença, entre perseguido e perseguidor.

Em primeira instância, ainda que tenhamos responsabilidade no nascimento destes sentimentos ou emoções como raiva e cólera em nosso inimigos, de nada adiantará, voltar a ler os capítulos escritos nesta história, como se fosse possível voltar no tempo. O ódio está aí, batendo a nossa porta, ainda que sua raiz tenha sido plantada no quintal de nossa morada afetiva.

São ex-sócios, ex-cônjuges, vizinhos, parentes próximos, pais e filhos, mães e filhas, noras e genros, todos estes laços de inimizade que agora os envolvem nas relações, tiveram uma causa. O problema é que para o indivíduo ruminante, tal qual uma fogueira que para não se apagar necessita de mais lenha, assim ele alimenta em pensamentos desordenados, tornando alvo de sua cólera, aquele a quem deseja atingir.

Sim, quando, em especial, carregamos ódio de outrem, a tendência à ruminação e à localização dos pontos negativos daquela pessoa são facilmente realçados, incentivados pelos pensamentos e emoções, na tentativa de manter acesa a chama da perseguição, da fixação.

O contrário, também, ocorre. Quando nos apaixonamos, somos movimentados por uma série de pensamentos, emoções, hormônios se agitam, e o objeto de nosso desejo passa a ser a única ideia de nossa projeção, sempre elevado à categoria de um semi deus. Se somos seres duais, e em nossa intimidade temos a mesma disposição para amar e odiar, por que seria diferente quando carregamos ódio? Pintamos o objeto de nossa projeção, tal qual a figura de um diabo, e além de seus defeitos, ainda inerentes à evolução humana, somamos a estes, os sentimentos confusos que dissociam e distanciam ainda mais a imagem dele de um ser humano capaz de possuir, ao menos uma virtude, haja vista, não existir ninguém completamente mau. Assim, como não há ninguém totalmente bom...

E se trilharmos por esse caminho, quando alguém nos é bom e quando nos é mau? Uma mãe que diz ‘não’ ao seu filho, impondo-lhe limites através da educação, é vista como má pelo garoto. Mas, para o crescimento desta relação de forma saudável e para que mais tarde, a polícia não venha dar os limites que lhe faltaram na infância e na adolescência, ela está sendo suficientemente boa. Então, logo se vê que há uma mudança de perspectiva na questão bem e mal, e agora na questão, inimigos e vítimas, amor e ódio.

Naturalmente, aquele que nos odeia e nos persegue desperta em nós, sentimentos contrários à harmonia. Imediatamente, ficamos armados com lanças, espadas, adagas afiadas na língua e guardadas nas bainhas dos pensamentos e dos sentimentos. Quando, porém, mudamos de perspectiva, e passamos a ver que o inimigo não é o algoz que irá nos humilhar e sim nos promover, aqueles sentimentos de mal estar, aqueles pensamentos destrutivos que lhe enviamos, desaparecem, lentamente, com o exercício e a repetição desta postura.

Podemos olhar para o inimigo como alguém que tem a função de nos ensinar dois pontos importantes ao nosso crescimento, a paciência e a tolerância. A paciência é recurso primoroso para quem irá enfrentar sofrimentos maiores do que a vingança de outrem. Sabe-se que pela lei natural deste Planeta, todos, indistintamente, passarão por tormentos maiores na existência. O que é um inimigo diante de um desastre ambiental, como o furacão que destruiu várias cidades ao Sul dos EUA, desabrigando milhares de pessoas e matando outras centenas? O que é uma perseguição perante o rompimento da barragem de uma represa que destruiu a vida de milhares de pessoas e soterrou seus projetos existenciais? Percebe-se que até mesmo esses, que sofreram com tais calamidades, foram convidados a mudar de postura diante da dor inevitável, ainda que imposta pela negligência de uma minoria.

A tolerância não é a medida que usamos, quando fazemos um bolo. Geralmente, pega-se aquele copo com áreas demarcadas para que não ultrapassemos os limites e assim, ele serve para fazer-se cumprir o que diz a receita. O ser humano não tem manual de instrução, não vem com bula, não tem receita para as nossas relações. A tolerância é a medida que gostaríamos que o outro nos aceitasse como somos, como sentimos, como pensamos, como agimos. Não há tolerância, sem autoaceitação. A tolerância para com o outro, começa na que temos para conosco. Pode ser que não nos aceitemos e com isso passemos a nos cobrar demais, ou até mesmo, cobramos do outro o que não conseguimos fazer em nós. A isto dou o nome de intolerância egoística e muitas vezes está apoiada nas fraquezas que escamoteamos.

O outro tem o direito de ser feliz como queira. Aliás, todos temos esse direito. E a intolerância, conduz à falta de respeito, à derrogação das leis do bom convívio e com isso nascem os algozes, os infelizes e trágicos episódios de violência doméstica que ganham proporções até interfamiliares. E agora, criado o tumulto pela intolerância e incompreensão, faz-se presente a animosidade. E não tem Feliz Natal, nem Happy New Year que dê jeito.

O inimigo é uma excelente oportunidade para despertar nosso potencial de crescimento. Ele é um desafio constante, um Big Brother a nos observar para que na primeira oportunidade que surja, nossos erros sejam realçados e sejamos lançados no paredão.

Não há como amar o inimigo, enquanto não deixarmos de vê-lo como algoz. Ele é nosso mestre. Está nos ensinando a sermos melhores, então, em verdade, ele deveria ser alvo de nossa reverência. Porém, aquele que não compreendeu que o ódio o faz doente, estabelecerá indeterminadamente este ciclo vicioso, o da animosidade que se arrastará pela existência. Todavia, para outros que buscam o desprendimento, compreendendo que a vida depende do oxigênio para manter-se em uma impermanência, e que o ciclo é de renovação e não de fixação em determinado ponto de onde nascem a cólera, a raiva e o ódio, este já galgou níveis mais apurados e com ele sentidos mais aguçados que o colocam numa outra perspectiva, a de que tudo tem e sofre uma transformação.

Portanto, o inimigo além de mestre, é o caminho de nossa transformação. Ele é a ponte de nossa impermanência, é a transição entre as idades que conduzem ao amadurecimento. Impossível aquele que passou pela Terra e nunca teve um inimigo, mesmo que ainda não lhe tenha tornado nesta condição de forma consciente, mas ainda assim, que tenha sido alvo de inveja, de animosidade, de calúnia, de leviandade.

E depois de tudo isso, você vai perguntar, ‘por que comigo?’ Ou vai gritar, dizendo que não merece. Sim, você não merece. É verdade, merece conviver com pessoas mais saudáveis, merece oportunidades de gratidão, merece voltar a sorrir... Então, não se iguale ao seu inimigo. Você é o aluno, ele é seu mestre! E lhe diga, te cultuo por me tornares mais manso, mais humilde, mais pacífico, mais consciente no que me faz bem ao sentir e no que já não quero mais carregar comigo, o teu ódio.

E em breve, com esse exercício diário, renovando os pensamentos e sentimentos, seremos capazes de dar o próximo passo. Sabe qual é? É fácil, fácil... Identificar que seu inimigo tem alguns aspectos bons na personalidade. Mentalize-o, vez ou outra, de forma reflexiva no que ele tem de bom, e com o tempo nascerá em você um sentimento chamado, COMPAIXÃO!

Por que Compaixão? Porque ele tem outras coisas boas, mas ainda está debruçado na janela do ódio. O quão deve ser triste olhar para a única paisagem que é a perseguição ao outro. Como deve ser doentio, nutrir este afeto, elegendo-o como uma mono ideia que retira-lhe a paz íntima.

E desse dia em diante, a compaixão será sua companheira de jornada todas as vezes que você entrar em contato com o Outro, com a Natureza, com o seu Eu! Este sentimento reúne todos os aspectos que outrora estavam dispersos como, a paciência, a tolerância, e quando você realçou os aspectos bons de seu inimigo, sem se perceber você reconheceu que ele não é completamente mau e que também deve ter seus motivos para ser tão infeliz, tão doente. Então, aprenda com seu mestre, pois quem sabe um dia, você passará a amá-lo com compaixão.

Read 5804 times Last modified on Segunda, 17 Julho 2017 13:10
Liszt Rangel

Liszt Rangel é jornalista, psicólogo, com atuação clínica, de base analítica, e historiador, com pesquisas acerca das Civilizações Antigas. Há quase 20 anos se dedica a estudar o Jesus Histórico e o Cristianismo Primitivo, realizando investigações na Europa, Oriente Médio e África. Como escritor, já publicou dez livros, sendo cinco livros na área da Psicologia.

Login to post comments