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EM QUE MUNDO VOCÊ VIVE?

Conta uma antiga lenda que...
Certa feita estava ocorrendo uma grandiosa festa em um magnífico palácio medieval. Os convidados superlotavam os salões. Pessoas da nobreza, do clero, da vida pública se multiplicavam, disputando espaço para serem vistas pelo anfitrião, o Rei. Ele oferecera a oportunidade para que todos os que frequentavam a sua corte, pudessem gozar de sua companhia piedosa e desfrutassem, também, do luxo, da pompa e das orgias sexuais que sempre ao final da noite, tomavam conta da alcova palaciana.

mascaras novaA festa havia começado, quando apareceu ao portão, uma mulher envolta em andrajos sujos, muito mal vestida, desejando entrar no palácio. O guarda ao vê-la, ficou surpreso e mandou chamar o mestre do cerimonial, pois a senhora à frente do portão dizia ter o convite para participar da noite festiva. Assim que o cerimonialista chegou e logo viu a mulher, perguntou-lhe o nome. Ao que a estranha respondeu: "Chamo-me Realidade!" O chefe da guarda, que representava a segurança do palácio, também estava presente e imediatamente gritou: "Absurdo! Como ousas querer entrar em uma festa onde só existe ilusão? Causarias o maior constrangimento a todos... Fora daqui mulher!" E ela foi embora...

Um pouco mais tarde, apresentou-se à entrada, uma senhora de idade bastante avançada, trazendo na face a marca do Tempo. Expressou a vontade de entrar no palácio, porém o sentinela que havia testemunhado o triste fim da visitante anterior, nem se deu ao trabalho de mandar chamar o cerimonialista, nem o chefe da guarda, e logo perguntou: "Quem é a senhora?" Ao que ouviu da mulher: "Eu sou a senhora Verdade e gostaria de entrar!" O sentinela desesperou-se e bradou: "Louca!!! Como pensas em vir, se aqui dentro reina apenas a mentira! Debanda imediatamente antes que te descubram!" E a visitante se foi...

Quando a festa estava no auge, parou diante do palácio a carruagem de uma convidada que estava atrasada. Era uma linda mulher, desfilando um vestido vaporoso, ostentando no rosto uma bela máscara. Dava para ver seus cabelos louros, irradiando luz e sua silhueta demonstrava um corpo escultural debaixo da transparência em que se vestira. Assim que ela desceu, foi recebida por todos os soldados que abriram os portões para ela, e o sentinela nem mandou chamar o cerimonialista, muito menos o chefe da guarda e de braços abertos recebeu a ilustre visitante. Ele apenas perguntou-lhe o nome, ao que ela respondeu sem mostrar qualquer convite nas mãos: "Chamo-me Fantasia!" Ele, então, respondeu: "Seja bem vinda, pois Fantasia nesta festa trará ainda mais alegria."

Assim que a misteriosa visitante adentrou o grande salão, a música parou, e todos interromperam a dança, voltando o olhar para a linda mulher que acabara de chegar. O rei logo animou-se, levantando-se de seu trono e dirigiu-se à jovem com galanteios. Ao chegar mais perto para apresentá-la aos convidados, estendeu o braço, tocando em sua mão e de súbito, a roupa da visitante diluiu-se e ela ficou despida, completamente nua, sem máscaras, sem alegorias, sem luxo. Estava simples e nua para o despertar de todos os que estavam na festa. Era a Verdade...

Do ponto de vista da Psicanálise a fantasia é bem propícia, pois são as lentes que colocamos em nossos olhos para não vermos uma verdade que provavelmente não suportaríamos. Frequentemente, todos usamos máscaras para representações sociais. Um dos problemas é quando a pessoa usa muitas e se perde nelas, surgindo assim, cada vez mais conflitos existenciais. A questão aprofunda-se quando da perda de identidade e da falta de transparência nas relações sociais, incluindo as afetivas, ocasiona ausência de autenticidade e de congruência na atitude.

Apesar de ser uma lenda, não seria o reflexo de nossa sociedade pós-moderna? Quantos se enfileiram como bajuladores e disputam espaço no aconchego da suntuosidade de festas repetitivas, de sábado em sábado? Festas sempre cheias de "pessoas vazias" e que para se sentirem importantes, postam no instagram suas fantasias e suas máscaras, a fim de se sentirem um pouco EX-BBB, uma celebridade anônima, ainda que momentaneamente, enquanto o lápis de olho não borra, nem a base cai revelando as olheiras e a idade por trás das máscaras.

Não se pode esquecer dos herois das praias e das academias, exibindo, também, no carnaval, ao tirarem suas camisetas, seus esteróides e anabolizantes usados em cavalo. São, de fato, os atuais Cavalos de Tróia, escondendo homenzinhos perigosos em sua intimidade.

Mas, é bom lembrar que o mais forte deles, tem um ponto frágil, o calcanhar. Então, a quem pensam que irão conquistar? As Helenas de Manoel Carlos? Essas são todas problemáticas, iguais a de Menelau. E quantos Páris ainda trarão mais tragédias por causa de tantas Helenas inseguras?

As festas de todos esses reis, foram e são pagas com o dinheiro público, quer na lenda ou na realidade. Os membros ainda posam como filantropos em jantares beneficentes e leilões que comercializam bizarrices. Todavia, na calada da noite, em solidão, longe dos flashes e das entrevistas, não seriam capazes de dar uma esmola a um tão solitário quanto eles nas ruas das grandes cidades. São pessoas ególatras e narcisistas que nem conhecem as problemáticas dos filhos, e em seus relacionamentos "amorosos", tornaram-se íntimos-estranhos. Sentam-se à mesa em um restaurante e cada um se isola em seu Sansung Galaxi S6 Edge Plus.

Quantos ostentam suas fantasias diárias, pagam preços exorbitantes para se vestirem como luminárias andantes? Simplesmente, para terem uma assinatura em um vestido feito por um estilista esquisotímico ou para carregar um jacarezinho na camisa?

E as fantasias luxuosas que duram apenas uma hora e meia de desfile na Sapucaí? E sem saber, ou sem querer tomar conhecimento em nome da alegria, contribui-se para o crime de contravenção. Quantos são os que pagam para terem suas fotos estampadas em colunas sociais, ou para que os paparazzis os persigam nas ruas? Ou quem sabe, deem a "sorte", "por coincidência", destes encontrarem as "estrelas" em um fim de tarde na praia do Leblon? Quantos "sem querer", deixaram suas fotos íntimas vazarem para a internet, justamente na hora em que estavam esquecidos pela grande mídia?

Quantos são os que programam viagens caríssimas ao exterior apenas para alugar uma limousine em Paris, e com os corpos projetados para fora da janela, virando a garrafa de champagne, gritam sem entender o que pronunciam: "Vive la vie!"? Ou se enfurnam no Hotel Ritz, só para tomar um café da manhã em Euro. Enquanto isso, perdem a oportunidade de ampliar os horizontes culturais, adquirir conhecimento até de suas origens históricas, sociais e comportamentais, porque precisam ir à Galeries Lafayette, senão os amigos irão chamá-los de pobres e tolos quando voltarem para casa. Os noivos de famílias coreanas e japonesas adoram tirar fotos em frente à Catedral de Notre Dame, como se ali, tivessem realizado, em verdade, o matrimônio deles...

E assim, em qualquer parte do mundo, todos deixam de fazer a diferença em um mundo inculto, cada vez mais tomado pela indiferença.

Sim... Indiferença é a palavra da moda! Quando o sacerdote católico Dom Mauro Morelli em sua obra social ligava para a polícia e gritava: "Venham tirar logo, este cadáver daqui da rua, pois meus meninos estão jogando futebol perto do corpo. Eles estão ficando indiferentes à dor do outro e à morte". Agora sim, compreendemos sobre o que Dom Mauro se referia.

Quem são os nobres, os clérigos e os homens públicos da lenda, em nossa realidade travestida em fantasia? Onde estão os reis e as rainhas da alcova que geram os escândalos do momento? Quem são estes que se permitem às ilusões do poder que corrompe, enquanto outros enfrentam uma dura realidade de injustiça e de desigualdade social? Quem são os produtores de mentiras da atualidade, que se revestem como missionários, ostentando a fantasia de "Messias da Religião"? Onde estão os "Messias da Política?" ou os "Salvadores da Pátria?". Quem elegeu a companhia destes, sabe a resposta para todas estas perguntas. Será que sabem mesmo? Ou ainda estão na fantasia desse eterno baile de máscaras?

Ao menos Oswald, Mário de Andrade e seus amigos da década de vinte, tiveram a coragem de gritar, "Nós não sabemos o que queremos, mas sabemos o que não queremos." Participaríamos da Semana de Arte Moderna ao lado desses "malucos"?

Mesmo tomado pela ilusão, evitando a realidade e criando mecanismos de fuga, o Homem será levado ao encontro inevitável com a Verdade, ainda que relativa, o encontro com ele mesmo. Em outras situações, poderá ser pelo Amor que irá curá-lo, ou pela identificação consciente de suas escolhas inconscientes que geraram grandes sofrimentos e sintomas individuais e coletivos.

A queda das máscaras, de início, repercutirá em intensos sofrimentos. E ainda assim, nem todas poderão cair. Entretanto, o Homem já sofre com elas, porém sem consciência do que o atormenta em seu mundo íntimo. Galopando, velozmente, vem em sua direção a Dama do Destino, a Morte, e conta ainda contra o ele, o Tempo, Senhor da Finitude Existencial. Em seu relógio, o Homem não pode deter o Tempo, apesar de tentar, ilusoriamente, marcá-lo. Ambos, a Morte e o Tempo, o convidam a uma experiência da qual ninguém escapa, não há quem possa fugir. Pode até adiar a sua chegada, mas o encontro é inevitável. Neste dia, que se repete todos os dias o Homem acordará para uma realidade inegável, onde as fantasias e as ilusões se dissiparão lentamente e a visão turva associada a uma consciência culpada e a um olhar ensimesmado, estarão atrelados aos seus convidados que lhe reclamarão mais gozo, mais algaravia. E assim... A festa será de outra natureza!

E sabe qual é a maior ironia de tudo isso? É que enquanto escrevia esta crônica, abria repetidas vezes uma janela em meu computador, chamando minha atenção com esse anúncio: "Programe seu Carnaval... Turbine sua fantasia!!!

Depois de tudo, sinto-me como Hardy, aquela hiena criada pelos estúdios Hanna-Barbera, quando lamentando com frequência, exclamava: "Oh, Céus! , Oh Vida!, Oh Azar!"

 

Ler 3436 vezes Última modificação em Segunda, 17 Julho 2017 13:10
Liszt Rangel

Liszt Rangel é jornalista, psicólogo, com atuação clínica, de base analítica, e historiador, com pesquisas acerca das Civilizações Antigas. Há quase 20 anos se dedica a estudar o Jesus Histórico e o Cristianismo Primitivo, realizando investigações na Europa, Oriente Médio e África. Como escritor, já publicou dez livros, sendo cinco livros na área da Psicologia.